Quem é Jane Doe?

Uma mulher nua, com o corpo coberto de tatuagens, é deixada na Times Square dentro de uma mala. Levada pelo FBI, descobre-se que ela não tem memória e que seu corpo é um “mapa do tesouro” coberto de pistas que desvendam crimes e denunciam formas de corrupção em empresas e governo.  Ela logo demonstra habilidades intelectuais e físicas fora do comum.
Mas quem é Jane Doe? Jane Doe é grito de “basta!” que sai da garganta das mulheres reais.

Sem identidade, sem direitos. Jane representa todas as mulheres que lutam no cotidiano por terem reconhecidos seus direitos já instituídos legalmente.

Sem memória, Jane não tem um passado, como tantas mulheres que são esquecidas numa sociedade machista e patriarcal. Impossível não me lembrar das pesquisas de Carô Murgel que levantou milhares de compositoras brasileiras ocultadas da memória e da história.

O corpo coberto de tatuagens. Ela traz as marcas de uma sociedade que transforma mulheres em mercadoria, adequadas apenas se compatíveis aos padrões de beleza dos manequins das lojas. Ditadura do corpo. Estereótipos que negam a maioria absoluta das mulheres seu próprio corpo e as decisões sobre ele.

Descartada numa mala. A metáfora perfeita! Tantas mulheres buscam se encaixar nos padrões por medo do descarte social. Evas, bruxas ou prostitutas. Rótulos e nada mais.

Família (Sheppard), Profissão (Nas) e Relacionamentos (Weller) querem moldar Jane Doe aos seus propósitos, orientando a reconstrução de sua identidade. “Fazer o que você quer põe em risco nosso objetivo maior.” ou “Ela é impossível!” , nas palavras de Nas.  “Eu te salvei”,  Sheppard argumenta para que ela volte a seguir as diretrizes da família fora da qual  só existe a reprovação. Incontáveis “Eu não confio nela” são ditos pelos personagens que rodeiam Jane quando ela foge de suas expectativas. Mulheres sempre cobradas para serem as “boas meninas” não importa em qual contexto de valores se esteja.

Mas Jane se nega a seguir os padrões, ela escapa pela tangente, enfrenta seus medos e erros de frente, e luta incansavelmente para ser a própria artífice de sua identidade.  E colhe os frutos amargos de sua tragetória: isolada, acusada, torturada, estigmatizada, Jane sofre, mas não desiste de seus objetivos.

Casa, trabalho, família, relacionamentos, às vezes a rotina é tão opressora que se torna difícil aceitar a falta dela: “O que eu vou fazer agora? Quer dizer, eu acordava todo dia e vinha pra cá e nós salvávamos o mundo.” (Jane Doe) Quantas mulheres “salvam seu mundo” todo dia e se sacrificam para que a rotina de todos a sua volta não vire um caos. E na melhor frase já dita por Weller _ aquele Weller que assumia seus sentimentos_ “Você pode ser o que quiser!”. Eu quase gritei: “Meu Deus, o cara enxerga!”

A relação com Weller é um espetáculo a parte. Na primeira temporada ele se propõe a protegê-la. Ela aceita e a relação evolui. A medida que Jane ganha independência e busca seu próprio caminho, ele muda. O final do episódio 23 é fantástico: é ele quem a silencia e a entrega à violência da CIA. Quando ela mais uma vez se faz forte, escapa e o reencontro acontece, Weller é outro e dá continuidade à tortura cotidiana com as acusações de mentira e traição. Ele tem que ser o protetor, o macho alfa. É muito difícil pra ele lidar com uma Jane que está definitivamente fora do seu controle, dorme com outros homens, questiona suas decisões. Não, ela não é a pequena e indefesa Taylor. Então ele se socorre nos braços de outra mulher que diz precisar dele.  Quantos homens também presos aos rótulos sociais e incapazes de lutar por seus próprios sentimentos. Mais vale uma Nas coberta de falsidade do que uma Jane verdadeira.

E o que falar da sexualidade na série? Bem, Weller pode manter a paquera com Jane, enquanto vira a Allie do avesso ou se envolver sexualmente com alguém do trabalho (Nas! Por mais nojento que isso seja pra qualquer fã). Quando Jane dorme com Oscar- Jane é demais, ela dorme com o inimigo! _ e segue suas orientações, por pressão, desejo e ligação identitária, é acusada de traição. Dá pra escrever uma tese só sobre a ligação desses dois e seu  desfecho emblemático. Bem mais a frente, aparece Oliver, gentil e meigo, tão perfeito. Primeiro Weller se interpõe a paquera imediatamente. Depois é Jane mesma que se nega a ir em frente. As perguntas básicas do rapaz foram esmagadoras: família, trabalho, corpo (tatuagens). Maravilhosamente, Jane se levanta da mesa e sai. Quem dera todas nós tivéssemos essa coragem de enfrentar o “básico” no projeto de construção de nossas identidades. Quem sabe um dia não seremos rotuladas pelo corpo ou status social, mas pela nossa capacidade.

Sobre o presente e o passado de Jane Doe, ela deixa para todas nós: “A resposta é você!”

 

Carla Izabel Amaro Brólia – Professora de História

 

Obs: Desculpem-me a simplicidade do texto. Pensei enquanto realizava serviços domésticos e escrevi rapidamente para não perder a ideia.

 

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5 comentários em “Quem é Jane Doe?

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  1. Excelente texto, Carla. É com textos tão bem escritos como esse que a gente consegue provar o quanto Blindspot é uma série única, seja pela sua ousadia ou pela capacidade tão bela de criar personagens femininas fortes. Claro que a Jane com certeza merece toda a nossa atenção, mas as outras também tem a sua força representativa garantida e isso com certeza merece uma abordagem a parte nos próximos textos. Ficarei no aguardo.

    Quanto a Jane, achei muito interessante as relações que você fez com o desenvolvimento dela e com questões atuais e pertinentes do feminismo. Pensando nisso, dá até um orgulho maior por assistir uma série como essa, tão necessária.

    Parabéns.

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